Pessoas compram, consomem, e produzem uma infinidade de matérias primas, produtos, bens de consumo e de capital. A geração e concentração de resíduos sólidos (urbanos, industriais, rurais), aumenta continuamente, quando somados como resultado das necessidades e costumes do coletivo de indivíduos/as existentes nas cidades, no país e no mundo.

LIXO é um termo inapropriado, daí colcoamos essa palavra entre haspas, ou seja, “lixo”. E porquê ?

Devido ao material LIXO ser na verdade composto por RESÍDUOS + REJEITOS + RESTOS INAPROVEITÁVEIS.

Tipos de Resíduos:

  1. Classe I, são aqueles que são perigosos, oferecem riscos de contaminação, podem causar danos à saúde, ou são originados do sistema de saúde, e,
  2. Classe II (inertes e não reagentes), que são os resíduos que não oferecem riscos de contaminação (ou toxidez) ou danos à saúde, pelo simples contato, pela manipulação, ou pelo contato com a pele, respiração ou com mucosas.

Rejeitos: descartes pós-resíduos, remanescentes de processamento de reciclagem; Restos inaproveitáveis: sem reciclagem possível, inertes ou não-inertes.

Um dos grandes pontos geradores da difícil situação enfrentada, no tocante ao vulgarmente conhecido “lixo urbano”, além do fato recorrente de buscar uma destinação adequada à realidade, diz respeito à falta de consciência da população. Com relação ao “lixo industrial” o mesmo é usualmente destinado a empresas parceiras contratadas pela empresa geradora do “lixo”, ou seja, do resíduo.

Muitas vezes o “lixo industrial” exige algum tratamento ou processamento para reduzir seu volume e otimizar o quantitativo a ser depositado em um aterro de forma a ocupar menos volume, ou é necessário que sejam tratados, quando é um resíduo Classe I, evitando os danos e riscos que podem causar a ecossistemas, à saúde humana, ou a sistemas ambientais.

O modo como a grande maioria das pessoas se desfaz daquilo que consume, sem pensar no que acontecerá depois, de que forma ou para onde vai: resulta na geração de LIXO…

LIXO, para a RECICLI e para Catadores de Recicláveis, é matéria prima. É um material gerado por produtos descartados sem um lugar apropriado de disposição, fora de seu ciclo natural de decomposição, ou não inserido em uma linha de reciclagem.

Com a evolução humana a geração de lixo sofreu alterações qualitativas e quantitativas. A geração de lixo foi ficando maior que a soma: do consumo de materiais + descartes… Hoje em dia a humanidade produz resíduos sólidos a uma taxa industrial, ou seja, gera lixo em volumes e peso proporcional à escala de produção industrial de produtos, bens, utilidades e máquinas.

A primeira forma de organização humana envolveu o Nomadismo. Uma etapa pré agricultura, em que os abrigos (choça, cabana provisória, caverna etc…) eram temporários ou mudavam conforme a época do anos; em que a obtenção de alimentos era pela coleta de frutos, raízes e verduras, e pela caça ou pesca, assegurando a sobrevivência do grupo, do clã, ou da tribo. Ao findar o consumo de comida e sendo gerados restos, e quando utilidades ou ferramentas se quebravam, estes eram deixados em pilhas, e eventualmente enterrados, gerando montes de resíduos, no Brasil denominados de sambaquis. A variação da disponibilidade de materiais na natureza, de alimentos, ou a busca de madeira ou pedra para fabricação de ferramentas, levava os nômades a sairem de determinado local, deixando para trás seu “lixo” que, por serem da própria natureza, decompunham-se facilmente e para ela retornavam, não gerando ou gerando volume grande de resíduos ou rejeitos.

Com o desenvolvimento da agricultura as comunidades humanas passaram a experimentar o Sedentarismo Primitivo. Surgem as primeiras vilas, que depois se desenvolvem em cidades, que passam a ser habitat de um maior número de pessoas. Os clãs se fixam nas cidades e são origem das grandes famílias, as tribos passam a se fixar em bairros ou distritos, englobando dois ou mais clãs, e as cidades se tornam mais complexas, com atividades especializadas. São construídas cabanas, tabas e casas básicas; é desenvolvido o cultivo de roças, de canteiros agriculturáveis, surgem as primeiras fazendas. A alimentação é combinado à coleta seletiva e regenerável. Com esse desenvolvimento de meios de produção e expansão na disponibilidade de comida, aumenta a geração de restos de comida, de materiais usados, ferramentas e cacos de cerâmicas, o “lixo” se torna mais complexo e parcialmente não orgânico. Decompositores naturais já demoram mais a reduzir, por exemplo, os cacos de cerâmica a substância simples que possam ser consumidos por seres vivos, como ocorre com os resíduos de origem orgânica, que são rapidamente integrados na cadeia alimentar e nos ciclos bio-geo-químicos naturais do Planeta. Os resíduos depositado em pilhas (sambaquis) posicionadas e afastadas adequadamente do aldeamento, sofrem consolidação na natureza (rochas artificiais) ou decomposição natural. Ocorrem as primeiras preocupações de afastamento entre a área de convívio e o lixo, em virtude de incômodos sensoriais (cheiro, visual, tátil na forma de incomodo de contato).

A evolução da sociedade humana gerou o Sedentarismo Civilizatório, etapa posterior ao Sedentarismo Primitivo. Nesta etapa, pré-industrial, são construídas casas permanentes, templos e palácios. Há construção de prédios públicos, locais de administração e culto, estradas, portos, e os produtos se tornam mais complexos, apesar de fabricados com materiais naturais, por exemplo, os muros de pedra, a cerâmica cozida para aumentar sua durabilidade, os artefatos, objetos, armas e instrumentos / equipamentos para a agricultura, fabricados de metais obtidos a partir de minerais: nenhum destes materiais sendo decomponíveis por organismos naturais, e que passam a ser presentes na Natureza por longos períodos de tempo, muitas vezes por séculos ou milênios. As criações extensivas, agricultura em fazendas comunais ou do Estado, e o esgotamento sanitário (China, Grécia, Roma, Aztecas, Incas, Sociedades Africanas), a coleta seletiva direcionada (orgânicos / inertes), e a fabricação de utilidades e bens feitos de metais passam a gerar, quando não são mais úteis, um volume de “lixo” mais complexo, que somente pode ser reincorporado aos ciclos bio-geo-químicos e à cadeia alimentar, depois de centenas de anos ou milênios, e cuja deposição misturada de recicláveis orgânicos e de cacos e restos inertes de origem rochosa ou metálica, passa a constituir um problema, surgindo os lixões, ou depósitos de lixo a céu aberto, atraindo animais que buscam alimentos orgânicos nesse material, mas que muitas vezes consomem o que não beneficia a sua saúde, e surgem os catadores de resíduos, que buscam reaproveitar ou usam para negociar os materiais que estão nestes grandes depósitos. Armazenamentos de resíduos e de rejeitos muito maiores que os antigos sambaquis.

Assim, o que é vulgarmente chamado de “lixo”, no dia-a-dia, é na verdade um objeto socialmente construído a partir da perspectiva histórica e social. O que é lixo para uns pode ser utilidade para outros. O que é considerado resíduo, rejeito ou resto depende de conhecimento técnico – científico, de conhecimento empírico / ancestral, do ecossistema abrangido.

Lixo não existe na Natureza. Nela rudo é reaproveitado, reciclado, reincorporado aos processos ambientais. Lixo é um defeito da forma de produção e de usos da Natureza pela espécie humana Homo Sapiens Sapiens. A reciclagem é a forma de consertarmos esse defeitos, e como produzimos “lixo”, ou seja resíduos e rejeitos em escala industrial, a reciclagem precisa ser feita também em escala industral, para atingir seu objetivo de imitar os processos naturais e fazer “desaparecer”, ou seja, reintroduzir na Natureza ou em nossos sistemas de produção, os resíduos e rejeitos que produzimos.

A reciclagem industrial é hoje uma exigência para criarmos uma forma saudável de nos conectar com o Meio-Ambiente, e combater a poluição e contaminação ambiental, colaborando fortemente para diminuir o aquecimento global, que tem sido chamado de Efeito Estufa.

Nas sociedades de ancestralidade eurocêntrica os problemas oriundos da produção de resíduos sólidos não são exclusividade dos sécs. XX / XXI: iniciam na gestão (ou não gestão) dos resíduos sólidos na Idade Média na Europa … um problema que é levado para as Américas e para a África com o processo de colonização de origem européia.

A Europa construída por tradição greco – romana misturada com culturas dos povos ditos “bárbaros” gerou povos semi-nômades (como Vikings) ou sedentários, porém sem preocupações sanitárias ou ambientais, que se ergueram após a destruição e subjugação da herança greco – romano / helênico – troiana (Rômulo e Remo, de cultura Troiana, filhos de Eneas, lider dos remanescentes de Troia, fundam Roma). Assentamentos e aldeamentos destes povos, que se misturam com os remanescentes da tradição clássica, são efetuados sem tempo à adaptação / evolução a necessidades de convívio sustentável com a natureza. Sincretismo entre simbolismos romanos e pagãos / panteístas / militares, mas sem incorporar cultura e tecnologias, fazem regredir ou são perrdidas as tradições sanitárias e de cuidado com resíduos, presentes na Roma e na Grécia clássicas.

A Revolução Industrial agravou o problema da geração qualitativa e quantitativa de “lixo”. Passamos a fabricar produtos, utilidade e bens de uso pessoal e comum, com emprego de substâncias mais complexas obtidas por processos químicos, físicos e por técnicas das engenharias. Usamos materiais e substâncias artificias, não existentes na Natureza, para os quais não existem organismos decompositores naturais, sejam fungos e liques, micro fauna ou macro fauna decompositora, nem bactérias ou anelídeos, que se alimentem de tintas, pigmentos, vernizes, ácidos, bases e sais fabricados pela humanidade, nem de metais, combustíveis e óleos… e muito menos das ligas metálicas e associações de metais com resinas, como os que empregamos na fabricação de circuitos e equipamentos eletrônicos. Esse “lixo” de alta tecnologia simplesmente não encontra destinação, nem nos aterros sanitários, devido à complexidade de seu armazenamento para evitar que contaminem sistemas ambientais, ecossistemas, meios hídricos e para que não entrem na cadeia alimentar, uma vez que se ocorrer irá afetar a saúde de pessoas, causando doenças de gravidade não desprezível, como as neurológica, tumorais, cancerígenas, dentre outras.

Essa Europa pós-bárbara, e posteriormente industrial, lança seus restos e resíduos sanitários orgânicos às ruas, esgotamento a céu aberto, acumulação de resíduos sólidos ou deposição em rios, lagos e canais…

Para Eigenheer, E.M. (História do Lixo, 2009) só na segunda metade do século XIX se faz distinção, na Europa, entre lixo (resíduos sólidos) e resíduos eliminados pelo corpo humano (fezes, urina). Rodrigues, J.C., (Higiene e Ilusão, 1995) considera que a urbanização sob a ótica moderna e consequentemente a organização do espaço urbano só começa, na Europa, no final do século XVIII (Revolução Industrial). A partir da observação que doenças eram causadas pela sujeira e consumo de esgoto com a água de beber, surge a Higiene Publica: uma técnica preocupada em transformar a cidade no sentindo de pavimentar as ruas, separar os cemitérios, e o interesse em cobrir o solo por medo da matéria em decomposição, preocupada em dar um destino menos perigoso à saúde para os resíduos orgânicos e inorgânicos, surgindo os depósitos de “lixo” e os aterros, posteriormente sanitários. Somente na 2a metade do século XX começamos a considerar a possibilidade de efetuar a reciclagem e tratamento de esgotos.

No decorrer da história, a tarefa da remoção do lixo era destinada aos excluídos sociais (prisioneiros, estrangeiros, escravos, carrascos, mendigos, entre outros), e, de alguma maneira, dada a complexidade social, esta prática continua atualmente.

Durante a Idade Média europeia a convivência com os dejetos, assim como os corpos, não se separavam. O cemitério e as sepulturas coletivas entreabertas faziam parte do centro da vida coletiva; as pessoas conviviam com os cadáveres e não existe registro de reclames sobre isso; corpos eram retirados de sepulturas em dias de festa para conviver com vivos (Philippe Aries, “História da Morte no Ocidente” & “O Homem Diante da Morte”).

A representação social do que era considerado asqueroso, portanto, era culturalmente diferente da sociedade capitalista e industrial, e a convivência com dejetos humanos era uma prática social decorrente. Sentimentos relacionados ao lixo como algo “asqueroso” ou até mesmo “perigoso” são introduzidos socialmente com a ruptura cultural e sociais impostas pelo Capitalismo (Demozzi, 2013, “Catadores de Materiais Recicláveis: Um estudo sobre o estigma social”;Eigenheer, 2009).

Em Portugal, Espanha, Inglaterra e Estados Germâmicos era costume lançar excrementos pelas janelas, nas ruas, desde que avisando antes aos passantes e pedestres (Demozzi, G.T., 2013, “Catadores de Materiais Recicláveis: Um estudo sobre o estigma social “)

Eigenheer (2009) indica que na Idade Média casas tinham áreas livres para excrementos e resíduos sólidos. A parte orgânica constituía boa parte dos resíduos domésticos e era utilizada para as esterqueiras. A expansão das cidades e crescimento das populações leva a uma situação que se complica com a redução dos espaços livres e com o aumento populacional. Era comum a criação de animais em ambiente doméstico, existia costume armazenar dejetos humanos e de animais nas casas. Os cães e animais de criação cuidavam de consumir dejetos e resíduos.

No século XVIII, com a Revolução Industrial, as máquinas a vapor intensificaram a produção de mercadorias e o consumo foi incentivado. As populações migraram para os centros urbanos, em busca de trabalho, melhores salários e outras condições de vida. À medida que o consumo de bens aumentava, a produção de lixo também crescia. Assim, o acúmulo de resíduos passou a ser um problema.

Aumento da população reduz espaços urbanos e permite propagação de doenças e parasitas. Animais convivendo com humanos facilitam a disseminação de epidemias. A questão sanitária e de geração de ´lixo passa a ser importante: mudam-se costumes e são introduzidas técnicas de redução de danos ambientais.

A moderna geração de resíduos sólidos adquire perfil exponencial, agravando o problema, em volume e qualidade dos descartes. Os 1.794 municípios da região Nordeste geraram, em 2016, a quantidade de 55.056 toneladas/dia de RSU, das quais 79% foram coletadas. Do montante coletado na região, 64,4% ou 27.906 toneladas diárias ainda são destinadas para lixões e aterros controlados. Os municípios da região Nordeste aplicaram em 2016, uma média mensal de R$ 8,35 por pessoa na coleta de RSU e demais serviços de limpeza urbana. O mercado de serviços de limpeza urbana da região movimentou cerca de R$ 6,1 bilhões, registrando queda de 1,4% em relação a 2015 (ABRELPE, 2017, “Panorama dos resíduos sólidos no Brasil).

Atualmente o mundo produz um quantitativo próximo a 2,1 bilhão de toneladas de resíduos sólidos por ano. Somente o Brasil produz 80.000.000 de toneladas. (World Bank Group, 2018, “What a waste 2.0”, technical report).

Desse montante, no Brasil, reciclamos menos de 3,0 %, ou seja, das 80 milhões de toneladas anualmente produzidas em 2018, menos de 2,4 milhões foram efetivamente recicladas. Estamos somente começando a reciclagem industrial no Brasil. A maior parte do que e reciclado é resultado da atividade de Cooperativas de Catadores que, catando manualmente os materiais (basicamente garrafas PET, eventualmente alguns outros tipos de plásticos, papéis e papelões, e metais principalmente alumínio e cobre), e da iniciativa de empresas de triagem, sendo destinado a pouquíssimas indústrias: basicamente a papeleiras (que fabricam papéis e papelões), metalúrgicas (em grande parte na fabricação de latas de alumínio), e de produtos à base de plásticos.

Somente há poucos anos, desde 2012, são celebrados alguns acordos setoriais cuidando de dar destinação ambientalmente sustentáveis a embalagens de pesticidas, de óleos industriais e automotores, de pneus, e somente em 2019 é publicado um acordo setorial cobrindo a área de resíduos de alta tecnologia.

Há muito a fazer e pouco tempo para ser feito. Por isso está em atividade a RECICLI: para colaborar com a destinação ambientalmente sustentável de resíduos, principalmente os que hoje não são atendidos por ninguém, ou or muitos poucos.